Como será o futuro do ensino do piano?


Talvez seja mais importante pensar o presente. Enquanto educadora musical, acredito ser essencial refletir e compreender a prática profissional do ensino de música, e neste texto, mais especificamente, do ensino do piano. Leia abaixo a comunicação apresentada no VI Encontro de Piano da Universidade Federal de Goiás, no dia 22 de agosto de 2018! O texto foi elaborado para despertar um debate e reflexão sobre o assunto, por isso, não está escrito de acordo com os critérios que um artigo científico requer para ter validade e consistência. Escreva para mim a sua opinião sobre o assunto, sobre o texto! Boa leitura! Divirta-se!

Reflexões acerca do ensino do piano na contemporaneidade e a formação do professor.

Revisar uma pesquisa implica em revisitar e reavaliar questões e resultados levantados. O título do meu TCC foi O ensino de piano na contemporaneidade: a profissão de professor de piano tem futuro? o qual envolveu uma pesquisa de campo em duas instituições: o Centro de Educação Profissional em Artes Basileu França e a Escola e Música e Artes Cênicas da UFG. Foram feitas entrevistas com professores e alunos das duas instituições. O objetivo era compreender como era vivenciada e compreendida a profissão de professor de piano atual e historicamente e o número reduzido de alunos em 2013 fez-nos questionar a continuidade da profissão de professor de piano. É claro que os resultados da pesquisa são frágeis, já que os dados foram coletados num curto espaço de tempo, de apenas 1 ano. Seriam necessárias a avaliação de inúmeros fatores para afirmar uma conclusão relacionada à profissão de professor, desde o estudo do piano em suas diversas manifestações, da primeira infância à formação acadêmica, considerando contextos específicos.

A continuidade foi posta em questão principalmente em relação às questões estruturais: um dos aspectos levantados foi a quantidade reduzida de estudantes de licenciatura em piano matriculados frequentes e boa parte não possuía o instrumento e não tinha uma boa quantidade de horas de estudos cuja prática do piano naturalmente exige ao estudante. Ao contrário, no curso técnico, a quantidade de tempo de estudo era maior, embora a quantidade de alunos que pretendiam seguir a profissão fosse bem menor. Outra questão era a escolha da profissão, a qual prevaleceu o gosto pela música e pelo piano como fator de decisão, a parte financeira não estava diretamente ligada à escolha profissional. Um ponto que precisa ser considerado, embora não tenha sido levantado e discutido na pesquisa, é que boa parte dos professores de piano atuantes são formados em bacharelado em piano.

Outro questionamento que foi encontrado e, que já envolve algumas reflexões de alguns anos após a escrita do TCC, é a relação da aprendizagem do piano e a tradição do ensino. A trajetória histórica de tratados e escolas nacionais europeias, assim como o ensino de piano no Brasil, precisaria ser conhecida pelo estudante devido à importância do conhecimento da origem da transmissão da arte de tocar piano até a atualidade. Por outro lado, tem-se o questionamento do paradigma de ensino conservatorial cujo programa e repertório está presente na grade curricular e no plano de ensino de ambas instituições analisadas.

Em artigos analisados, percebeu-se questionamentos acadêmicos acerca do mesmo tema, propondo posturas pedagógicas diferenciadas, como a aquisição de habilidades e não um extenso repertório obrigatório, podendo adaptar o ensino do piano à personalidade de cada aluno. Atividades como piano em grupo, principalmente para iniciantes também são uma inovação em relação ao ensino.

Acrescentando à reflexão a prática profissional como professora de piano, ainda há a questão da nossa época. Existe uma necessidade de mudança de paradigma devido a um estilo de vida acelerado, líquido como diz Zigmund Bauman, cujos hábitos, novas tecnologias, o mundo em rede promovido pela Internet e relacionamentos sociais transformaram também contextos que envolvem a prática de tocar um instrumento musical, penso eu.

No entanto, acredito que não só as mudanças do século XXI transformaram o ensino. Penso que há uma mudança estética, uma percepção de mundo diferenciada, desde a apreciação musical corriqueira de música ambiente até a aprendizagem do instrumento. Os gostos, o que agrada e desagrada, o belo, o feio serão sempre questões filosóficas que caberão a nós refletir, buscar compreender e tentar chegar a uma definição. Deste modo, o aluno, seja na primeira infância ou na fase adulta, começará aprender a partir da estética de uma pessoa do século XXI (podemos pensar em estéticas também, será que há apenas uma? Pessoalmente, acredito que não. Poderíamos pensar de outra forma: o aluno começará a aprender a partir da própria estética, situada em algum contexto específico pessoal e da contemporaneidade).

Será que o ensino do piano programático está em harmonia com esta percepção de mundo? Acredito que ele está para as pessoas que se interessam em aprofundar o estudo do instrumento, ou seja, que têm uma percepção que seja predisposta e possível de direcioná-la a este habitus, mas não como regra geral. Parece óbvio, haverão aqueles alunos que se dedicarão mais a um estudo erudito, mas do ponto de vista pedagógico há uma transformação, já que o piano não possui uma tradição de literatura (ou desconhecida para mim) em relação ao ensino do piano em diferentes fases da vida: para a primeira infância, para jovens e adultos e até, especificamente, para idosos. Apoia-se, então, em metodologias e pedagogias como um filtro, um óculos para delimitar o ensino a determinadas habilidades ou a abordagens pedagógicas construídas a partir de erros e acertos da experiência.

Percebo uma riqueza de detalhes no ensino do piano cujos temas se enredam em diversas áreas do saber. Poder-se-ia ter muitos estudos de casos nos quais certas questões técnicas pertinentes ao estudo do piano poderiam ser vistas de forma mais orgânica, ou seja, de modo que o aluno seja compreendido de modo global e não apenas a partir do resultado musical apresentado. Desta forma, é possível pensar em soluções para um problema técnico a partir da compreensão do aluno como um ser em sua necessidade em se expressar musicalmente e não apenas no papel de intérprete de uma obra musical que deve ler e executar bem a partitura. O objetivo seria pensar na prática do instrumento a partir de questões individuais e contextualizadas, muito mais do que apenas a resposta musical a práticas e regras específicas transmitida pelo professor. Espero fazer uma pesquisa formal como esta um dia e, se você conhecer alguma pesquisa semelhante, por favor, me envie as referências. Ficarei imensamente grata.

Deste modo, a profissão de professor de piano é uma arte assim como a arte de fazer uma composição: do mesmo modo que é necessário conceber e estruturar uma ideia musical a partir de uma intenção estética, há uma necessidade de se comunicar esteticamente com seus alunos, mães, pais, familiares, incluindo o estudo da faixa etária, situação sócio-econômica, cultura familiar e social para que o ensino se organize de forma a despertar não só a prática do instrumento do piano, mas a sobrevivência de um repertório pianístico que não fique restrito a um publico especializado. Sem esquecer que todo este contexto está dentro de uma economia criativa que envolve um esforço muito maior do que apenas o tempo em sala de aula. Acredito que a questão não seja se a profissão tem futuro, mas como será o futuro do ensino do piano, o qual inevitavelmente esbarrará e influenciará determinantemente questões estéticas composicionais e performáticas.


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